Cartunista vencedor de prêmio Vladmir Herzog fala sobre os desafios da profissão

Eduardo Fabrício (2º semestre)

Gilmar Machado, cartunista com mais de 35 anos de carreira, vencedor de dois Prêmios Vladmir Herzog, entre outros, concedeu entrevista ao Blog De Olho na Carreira (DONC). O cartunista contou sobre sua trajetória profissional, trabalho na pandemia e as dificuldades de desenhar sobre política e sociedade. (Charges disponíveis no Instagram: @cartunista_das_cavernas)

DONC: Como você entrou na profissão? Sempre pensou em produzir sobre a realidade?

Machado: Eu comecei muito novo, lá nos anos 1980, a fazer os desenhos. Com 17 anos, trabalhava em uma fábrica de porcelana e ficava pintando com os dedos nas paredes brancas. Depois saí da fábrica e fui trabalhar em um sindicato, moro na região do grande ABC, onde historicamente se tem a força do sindicalismo dos anos 1980, de onde saiu Lula etc. Comecei a desenhar nessa época, para o jornal do PT, e depois para os sindicatos, onde fiquei dez anos. Foi aí que eu aprendi a fazer charges sobre o movimento social, o que faço até hoje, há mais de 35 anos.

Depois fui trabalhar na “Grande Imprensa”, eu conseguia fazer os desenhos, tirinhas e ilustrações editoriais para vários jornais ao mesmo tempo, porque sempre trabalhei em casa.

DONC: De onde surgiu o nome “Cartunista das Cavernas”?

Machado: Esse nome é porque eu sempre atuei em casa, no meu próprio estúdio, que é onde eu consigo trabalhar bem. Eu já trabalhei em redação de jornal, mas eu não aguentei muito tempo, tem muito barulho, pressão, som periférico, em redação é aquela loucura. Ficam aquelas baias juntas e eu não conseguia me concentrar. Aí eu voltei para as ‘cavernas’, eu funciono melhor em casa, sozinho, sem som, sem nada.

DONC: Como é seu processo de criação? Tem alguma rotina ou é algo espontâneo?

Machado: Ao longo da carreira eu já tive vários processos. Já teve época que eu tinha que fazer tiras diárias para o jornal, então eu dormia com a prancheta do lado da cama para não perder alguma ideia. Hoje em dia eu me pauto muito nas redes sociais, no noticiário independente, diferenciado dos grandes jornais e portais. Faço a criação durante o dia, a notícia mais importante, sem muitas regras, a hora que tenho alguma ideia faço e lanço nas redes sociais.

Como projeto tenho feito uma coleção de livros, “Brasil em Charges”. Depois da entrada do Bolsonaro, já fiz duas edições e pretendo fazer mais duas. Faço sempre no final do ano uma campanha de financiamento coletivo para produzir a edição.

DONC: Há diferença entre trabalhar para um veículo jornalístico e produzir de forma independente?

Machado: Tem sim. Eu trabalhei para imprensa sindical, grandes jornais, livros didáticos, revistas etc., já tinha diferença de trabalhar de um para outro. Por exemplo, em livros didáticos, há uma série de regras devido ao público para o qual é destinado. A principal diferença entre trabalhar para a imprensa e de forma independente é que você é seu próprio editor, não há crivo externo ou “censura”. Acho que no Brasil, para quem trabalha para grande imprensa, não tem liberdade para fazer aquilo que exatamente deveria se fazer, por exemplo a charge efetiva, com a proposta original, uma ‘porrada’, crítica pesada, ou de humor. Só de forma independente que consigo fazer isso, faço aquilo que acho que tem que ser feito. Lá nos jornais não se podia fazer qualquer coisa, se fazia uma mera ilustração, não se fazia charge, por conta daquele seguimento político social que favorecia o veículo de imprensa.

DONC: Como foi receber o Prêmio Vladmir Herzog, o mais importante do jornalismo brasileiro?

Machado: Foi muito legal receber, já recebi duas vezes. Pela linha de trabalho que eu tenho: direitos humanos, sociais e políticos, o Vladmir Herzog vem contemplar tudo isso. Já ganhei outros prêmios, mas esse resume todo o objetivo e pauta que eu defendo e acredito desde quando era jovem. Tenho muito orgulho, é muito bacana fazer parte desse seleto time.

DONC: A pandemia alterou sua forma de trabalhar?

Machado: Sim, alterou não só a forma de trabalhar, mas também o comportamento geral, não tem como sair ileso disso. O primeiro efeito da pandemia foi perder meus contratos com jornais distribuídos manualmente, de alguns sindicatos, OAB etc. Porém fiz algumas outras coisas, foi bom para fazer livros, fiz um livro infantil para uma editora e acentuei mais o trabalho independente, redes sociais e charges. Com a pandemia e esse governo, é difícil dar conta dos assuntos, isso preencheu bem esse tempo e a escassez de contratos.

DONC: Existe algum limite para as críticas nas charges?

Machado: Tem limite sim, por exemplo o Charlie Hebdo não tinha muito limite. Nós, por si só, pela nossa história, já somos “autocensurados”, tem coisa que a gente não tem coragem de fazer, por exemplo as charges do papa que o Charlie já fez, é muito delicado de fazer. Como o comportamento humano está em grande transição, temos que nos atentar a isso, não dá para fazer humor homofóbico, machista, preconceituoso… Não há graça nenhuma em fazer isso, apesar de alguns humoristas usarem como ganchos de piada ainda. A crítica, no meu caso, é bem-vinda e usável, nas coisas que reprimem a sociedade.

DONC: Você já sofreu ou sofre ataques das pessoas públicas que você critica? Como você lida com isso?

Machado: Nesse momento de polarização política teve muito ataque. Eu tinha um público muito variado na rede social, estava publicando coisas mais lights, fazia muita tirinha de humor comportamental. Aí veio o governo atual, na campanha eu já comecei a fazer charges críticas e políticas, como eu sempre fiz na vida, contra Lula, FHC e vários governos. Sempre tive essa liberdade de fazer, apesar de conhecer Lula de ter me formado e ter convívio com a família dele, por uma época, nunca deixei de criticar. Eu acho que o trabalho profissional vem em primeiro momento e eu gosto de ter essa liberdade profissional para criticar qualquer um que esteja no poder. Quando começou a campanha de 2018, eu comecei a fazer crítica do governo atual e aí comecei a receber um monte de xingamento. Eu não entendi e fiquei meio surpreso, tinha coisas bem esquisitas, do tipo “você não pode fazer isso, respeita o capitão”. Eu achava muito surreal e foi isso que deu mais gás para continuar fazendo charges mais ferrenhas contra o governo e sobre todas as aberrações deploráveis da linha política, que não tem nenhuma proposta, por isso causa essa confusão, enfim é uma coisa patética na minha opinião. Ao longo do tempo foi rolando esse tipo de crítica, de xingamentos. No começo ficava meio assustado, inclusive porque uma das pessoas que me criticava e ameaçava, é um cara que ficava do lado do Bolsonaro do PSL, o vice-presidente do PSL na época, deputado federal do Nordeste. Acho que até hoje ele me segue e fica acompanhando o que eu faço. Esse eu tinha medo porque era complicado. Depois eu fui assimilando e vendo os perfis das pessoas que ameaçavam e xingavam a minha mãe, aquelas coisas para tentar reprimir. Até hoje tem pessoas que ficam seguindo, mas teve um filtro ao longo do tempo. Eu percebia que vários deles eram conservadores e aquelas “feras de teclado”. Porém, hoje a gente não sabe, é imprevisível. Teve gente que saiu do país por causa de ameaças. Coisas já me deixaram deprimido, querendo parar de fazer charge, mas hoje, por enquanto, vou assimilando e entendendo. Se acontece alguma coisa mais séria, mais complicada, aí eu já não sei como é que vai ser.

DONC: Qual conselho você dá para quem está começando hoje? Para quem quer iniciar uma carreira como cartunista no Brasil.

Machado: Acho que tem que gostar muito da parada. Uma coisa fundamental é ter um foco, de que maneira que você quer atuar? Você quer fazer o que? Você quer defender o que? Por que você quer fazer isso? É um trabalho profissional, tem um leque hoje para militância profissional que antes não tinha, era só pela grana na época que eu comecei, era para pagar conta. Hoje já tem essa veia um pouco mais de indignação, pela própria existência, isso afeta todo mundo e me afeta também, por isso que eu faço esse trabalho. Como o lance da conta de luz, vai me atingir diretamente, então uso a ferramenta do cartum, da charge independente para poder protestar contra isso. A gente no Brasil, tem pouco senso crítico, aceitamos tudo, então seria uma forma de educar a não aceitar, a criticar, reivindicar, ir lá bater o pé e não aceitar a forma como o governo e as autoridades manipulam e nos levam no engodo. Tem muita gente que fala que não sabe desenhar, mas o lance do cartum é uma coisa muito livre, de opinião. Fundamentalmente, você ter uma ideia, conceito, recado, uma mensagem, é mais importante nessa área do que propriamente o desenho gráfico, é claro que é uma coisa casada com outro fica melhor, mas necessariamente não tem que ter isso. É ver o foco que você quer e se dedicar a isso, fazer com prazer. Pesquisar muito, cada assunto tem que ser muito bem pesquisado, ainda mais hoje, com a mudança de comportamento humano, você não pode falar qualquer coisa.

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