A periferia como ela é

em

Agência Mural retrata as periferias como elas precisam, na contramão dos meios de comunicação tradicionais

Texto: Michelle Neri de Almeida, 1º semestre de Jornalismo / Imagem: arquivo Agência Mural

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias nasceu na Folha de S. Paulo, em 2010, como um projeto de um mês chamado Curso de Jornalismo Cidadão. Assim, cresceu um meio de comunicação com o intuito de retratar e falar da verdadeira periferia da Grande São Paulo, mostrando o lado bom das moradias na área geográfica estendida além do “centro” do poder político-econômico paulistano. A agência empenha-se em desmitificar o que as grandes mídias informam sobre as comunidades e veicular notícias sobre os bairros narradas pelos moradores.

Devido aos seus princípios básicos, não há reportagens sobre violência de nenhum tipo, uma vez que é isso que os outros meios de comunicação noticiam sobre periferia. Também se evita pautas ligadas à segurança pública, e com viés assistencialista. Um projeto iniciado por um morador, por exemplo, tem mais chances de virar pauta do que algo que venha de fora.

A Agência Mural busca um viés mais humano, pressuposto assumido pelo grupo desde o início. “Não respeitar o outro é inadmissível. O grupo é diverso: tem cadeirantes, tem negro, tem bissexual, gays. Tem perfil diverso, pois queremos quebrar os estereótipos. Direitos Humanos é fundamental para a harmonia”, afirma Vagner de Alencar, atual editor da Agência Mural e um dos percursores do projeto.

A ideia partiu do jornalista brasileiro, correspondente da BBC em Londres, Bruno Garcez, que, enquanto residente na Europa, lia jornais tupiniquins, percebendo que as notícias envolvendo a periferia no Brasil só eram tratadas pela ótica da violência. “Bruno se licenciou durante um ano de seu trabalho para formar jornalistas-cidadãos em São Paulo, por meio de uma bolsa da Fundação Knight, oferecida pelo International Center for Journalists (ICFJ), uma entidade que promove iniciativas pioneiras de jornalismo em diferentes partes do mundo”, explica a editora da Agência, Cíntia Gomes.

O projeto teve início em 2010, durante as oficinas de jornalismo cidadão que aconteceram em junho, agosto e outubro, durante quatro fins de semana, na sede da Folha de São Paulo. Três turmas se formaram no curso oferecido apenas para estudantes moradores da periferia. As turmas participavam de oficinas práticas e teóricas, como a análise de jornais para saber como a periferia era retratada nesses meios de comunicação.

A partir da oficina, identificaram que, de fato, havia essa “injustiça” com os bairros mais marginalizados: “Sobre o bairro M’Boi Mirim, no extremo-sul de São Paulo, as notícias se resumiam ao trânsito caótico. A Brasilândia, na violência. Esse retrato, para os moradores, não correspondia à realidade. A violência existe, entretanto não é exclusivo das periferias”, explica Vagner.

Apesar das dificuldades que passam por ser um veículo independente, sujeito a escassez de recursos, a grande recompensa é conseguir cumprir a missão: preencher a lacuna quando o assunto é a cobertura da periferia. “A gente só existe porque os meios de comunicação não retratam as periferias como elas precisam ser retratadas”, ressalta Vagner.

Em dado momento, perceberam que o empreendimento não era apenas o blog. Então, criaram outros projetos para se engajarem ainda mais com a comunidade. Durante quase nove anos de existência, foram criadas iniciativas em educação, emprego e exposições itinerantes.

“O propósito foi alcançado em 2015, quando decidiram criar a Agência Mural para unificar as diferentes frentes”, conta Vagner. Desde então, outros projetos surgiram, como a Expo Mural, que faz projetos itinerantes nas periferias, em que os correspondentes locais vão até as regiões que cobrem para mostrar o trabalho e estabelecer novos vínculos com a comunidade moradora. Além disso, nasceu também a 32xSP, que faz matéria com dados das subprefeituras. Ainda existe o projeto Mural nas Escolas e o próprio site da Agência.

Recentemente, lançaram a história em quadrinhos intitulada Futebol de Várzea. “É um livro-reportagem que conta as histórias de times de várzea femininos do extremo sul da cidade de São Paulo, que jogam no entorno da aldeia indígena do povo Guarani Mbya e de Vargem Grande”, afirma Cíntia Gomes.

No momento, as notícias são veiculadas apenas na plataforma virtual, pois criar um produto impresso é muito custoso. Para o futuro, pensam em criar parcerias com jornais de bairros, para que reproduzam o mesmo conteúdo da agência.

Saiba mais sobre a Agência Mural no site: https://www.agenciamural.org.br/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s