Bullying, violência, MMA e jornalismo: repórter do UOL comenta temas de suas coberturas

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Adriano Wilkson fala de matéria que trata sobre o Bullying. Foto: arquivo pessoal

Por Matheus Macarroni

Em entrevista para o Blog De Olho Na Carreira, Adriano Wilkson, repórter da UOL, respondeu temas tanto sobre o jornalismo em geral quanto sobre temas específicos sobre a área de esportes, como o futebol. Foram abordados temas sobre preconceito e violência nas torcidas organizadas, perspectivas para o futuro do MMA (Artes Marciais Mistas, do inglês Mixed Martial Arts) e do jornalismo e o saudosismo das pessoas em relação ao futebol e ao jornalismo.

P: “Em uma matéria sobre o bullying que você realizou, há um bate-papo entre os agressores e a vítima, algo um pouco diferente do usual. Qual o objetivo de realizar essa matéria de tal forma? ”

R: “Para o vídeo, queríamos fazer algo diferente. Quem faz o bullying geralmente não percebe o quão pesado que será para a vida de quem sofre.

Sugeri o reencontro. Era uma forma de se entenderem e conversarem sobre isso, e mostrar o público como isso é prejudicial, e como as pessoas podem mudar. ”

P: “Migrando um pouco de âmbito e indo para o esporte, você, hoje, cobre, em sua maioria, o MMA. Esse esporte é relativamente novo. O que você projeta para ele daqui há alguns anos? ”

R: “Não sei, muitas pessoas afirmavam que hoje o esporte já teria tido o seu ‘boom’. Eu acho que cresceu exponencialmente há alguns anos atrás, com o Anderson Silva e com outros atletas de ponta brasileiros que lutavam.

Acho que têm altos e baixos, depende muito se há algum atleta de alto nível no país, alguém que as pessoas acompanhem. É um ciclo. Aqui no Brasil as organizações são muito precárias, e isso dificulta o crescimento do esporte, apesar de já estar consolidado. ”

P: “Antes você cobria o futebol, e disse que antes não se interessava tanto por MMA. Hoje é o que você mais cobre, e chegou até a fazer um livro (A Grande Luta) que engloba esse meio. Como surgiu esse interesse pelo esporte? ”

R: “Aconteceu por causa da matéria do Acácio (Acácio “Pequeno” dos Santos, lutador de MMA e principal personagem do livro.). Comecei a olhar de uma forma diferente, e me inteirei no assunto, conhecendo muita gente e estudando sobre o esporte.

Não que eu tenha um interesse pessoal sore o esporte, é apenas profissional. Enquanto houver matérias boas sobre o MMA, continuarei me interessando e fazendo matérias sobre o esporte. ”

P: “Além de futebol e MMA, há algum outro esporte que você se identifica, profissionalmente ou pessoalmente? ”

R: “Pessoalmente, gosto de jogar basquete, e agora estou praticando Muay Thai. Assisto futebol na TV, e agora MMA. ”

P: “Quem você considera o maior nome do MMA, o melhor lutador? ”

R: “Anderson Silva. ”

P: “Agora eu gostaria de usar essa sua última resposta como base da minha próxima pergunta. O melhor lutador do MMA é o Anderson Silva. O melhor jogador do basquete foi Michael Jordan, para a maioria, e já se fala de nomes como Kobe Bryant e Lebron James. Tom Brady é um dos principais jogadores do futebol americano para muitos. O melhor do atletismo, Usain Bolt. Na natação, Phelps.

Em todos os esportes, os melhores se encontram hoje ou em um passado muito próximo. Por que você acha que no futebol, a esmagadora maioria defende veementemente que o melhor de todos é, incontestavelmente, o Pelé, que jogou na década de 60 principalmente?”

R: “Nunca havia parado para pensar nisso. Algumas pessoas dizem que o Pelé só se destacou pois jogava em um nível muito baixo. Eu não o vi, mas algumas pessoas já vêm o Messi como superior.

O futebol é um esporte mundial, e a internacionalização do Santos se deve ao Pelé, ele encantou muita gente. Realmente é algo para se pensar. ”

P: “Você veio do norte do país, e trabalha em um grande centro, São Paulo. Muitas vezes, há uma grande xenofobia e preconceito por parte de paulistas com pessoas que vieram do Norte ou Nordeste do país. Você sofreu esse preconceito? ”

R: “Não, pelo contrário. Quando eu trabalhava na Folha (Folha de S. Paulo), eu era o único de Belém (PA), e surgiu uma matéria sobre um atacante do Paysandu, um time do Norte.

Como eu sabia do assunto, eu fui designado para a matéria, e assim fui crescendo no jornalismo esportivo.

Nunca senti na pele essa xenofobia, apesar de fazerem piadinhas. Mas isso é normal, é brincadeira, eu não ligo.

Minha origem me ajudou mais do que atrapalhou. ”

P: “Há poucos dias saiu a convocação do Tite para a seleção brasileira, e ela gerou uma bipolaridade nas opiniões. Qual a sua opinião sobre a convocação? ”

R: “Acompanhei muito pouco a seleção, mas todo mundo sabe o que o Tite fez com a seleção. Ele certamente acompanha esses jogadores, e seus assistentes também. Acho que dá para confiar nele, está fazendo um excelente trabalho. ”

P: “Qual a vantagem de uma pessoa que domina várias áreas do jornalismo sobre uma pessoa que só domina um tipo (ex: cultural, esportivo, político…)? ”

R: “Antes de se escolher uma área, precisa-se saber o geral do jornalismo. É preciso saber o que é uma boa história, uma boa pauta, como se entrevista alguém… A partir daí você escolhe a sua área, mas antes de tudo você deve ser um jornalista. ”

P: “Antes, o jornalismo era muito diferente. Hoje ele está mais prático, e como tudo, evoluiu. Como você acha que essa profissão será daqui há algum tempo, com novas tecnologias e meios surgindo? ”

R: “Olhando hoje, fico um pouco pessimista, com as empresas tendo cada vez menos contratados, porém, há cada vez mais a oferta por notícias, e isso é bom.

Com a internet, muitas pessoas adquiriram voz. Assim, ficou mais difícil distinguir as notícias falsas das verdadeiras. Há aspectos positivos e negativos para se avaliar. É um exercício semelhante à futurologia, é estranho imaginar como será no futuro. ”

P: “Agora, voltando um pouco ao futebol. Considero até um quesito mais social do que futebolístico, mas é um tema que o abrange.

Na Europa, não se vê torcidas organizadas tão violentas quanto as do Brasil, e lá o futebol é totalmente profissional. Aqui, há muitos dirigentes amadores, que atrasam o futebol nacional. Você acha que a cabeça do torcedor influencia esse amadorismo, ou o amadorismo aflora a violência dos torcedores? ”

R: “Acho que a violência vai além das torcidas. O Brasil é um país violento, e isso abrange todas as áreas, e nas (torcidas) organizadas também, dentro e fora dos estádios.

O nosso futebol deve se profissionalizar, está se profissionalizando. Porém, ao meu ver, há um problema, que é a ‘gourmetização’ das arenas, tornando o ingresso mais caro e menos acessível às camadas mais pobres. ”

P: “Para finalizar, uma pergunta que abrange o jornalismo no geral. Hoje, muitos afirmam que o jornalismo está ‘respirando por aparelhos’, que no passado era muito melhor. Uma típica visão saudosista, de que antes era tudo tão bom, e hoje é tudo tão ruim. Qual o motivo, na sua visão, dessa opinião de grande parte da população? ”

R: “Não sei, talvez tenha muito a ver com as redes sociais. Antes, as notícias ruins não eram tão vistas como hoje. Como há mais conteúdo, a parte ruim e a boa crescem muito, mas é mais fácil criticar do que elogiar.

Há também o aumento da visibilidade das críticas. Antes, quem lia o jornal, não gostava e comentava com quem estava ao lado. Hoje, essa crítica é expressa nas mídias sociais e é vista por muita gente. ”

 

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