“Tenho mais medo de cobrir o Morro do Alemão do que a Síria”

joel fotografo

Com experiência de duas décadas em fotografia de áreas de conflito, Joel Silva vê no desapego dos traficantes com a vida um risco maior que a guerra internacional (foto: arquivo pessoal)

Clara Guimarães – 3º semestre de Jornalismo

O fotógrafo da Folha de São Paulo, Joel Silva, já esteve presente na Guerrilha Colombiana, no Morro do Alemão, no Golpe Militar de Honduras, por todo o Oriente Médio, na Bolívia e na África. Com tantas experiências, o fotógrafo ressalta que nenhuma é igual a outra. “Todos são conflitos, mas são realmente diferentes. Eu tenho mais medo de cobrir o Morro do Alemão e a Venezuela do que a Síria, por exemplo. Quando  você negocia com os rebeldes, eles permitem que você trabalhe com eles cobrindo o conflito. Porém, no Morro do Alemão, o traficante quer mais é te acertar”.

Joel começou sua carreira pensando em trabalhar na área esportiva. Mas, acontecimentos da vida e aprendizados o levaram para sua posição atual: um fotógrafo de guerra. “Estudando fotografia eu entendi que eu tenho que ter um motivo para o que eu estou fotografando. Essa é uma crítica que eu faço para os colegas fotógrafos: eles estão muito preocupados com a estética. Não produzem um ensaio que conte uma história. Eles produzem uma arte, enquanto eu estou mais preocupado com a função social”.

Fugindo da cobertura de conflitos, Joel fez um trabalho recente com os cortadores de cana que perderam seu trabalho por causa da mecanização e não foram apoiados pelo Estado de nenhuma forma. As fotos foram publicadas na editoria “Cotidiano” da Folha e exemplificam a função social que o fotojornalista precisa exercer na sociedade.

Entretanto, apesar do seu enfoque em questões sociais, ele acredita que em qualquer área da fotografia, seja esportiva ou de guerra, é possível mostrar um lado que as pessoas não conseguem ver ou imaginar. Isso é o que torna a foto, ou a matéria diferente e socialmente relevante.“A melhor foto minha do Morro do Alemão, que foi capa da Folha, foi a das crianças nadando na piscina da casa do traficante. Aquela é uma foto que eu achei maravilhosa no contexto da tomada do morro, não as armas em si”.

Sendo assim, durante uma conversa descontraída, Joel conta experiências marcantes que viveu durante seus anos de trabalho, ou como ele próprio diz: durante seus vinte anos de férias.

DONC- Como você faz para manter seu emocional equilibrado durante e depois das viagens?

Joel Silva- Neste trabalho você está sempre muito perto da morte. Então, eu acabo fazendo algumas loucuras depois que volto para amenizar a pressão. Por exemplo, um tempo atrás eu peguei uma mochila e sai de andarilho pela estrada. O chamado “Maluco de BR” no blog da Folha. O fotógrafo e o jornalista têm isso de acabar adquirindo um vício pelo trabalho, mas você precisa ter um tempo afastado, por isso eu vou, volto, fico um bom tempo sem ir pra lá (zonas de guerra) e quando tiver outra oportunidade eu volto. É um trabalho com muita pressão envolvida.

DONC- Você pode contar um pouco mais pra gente sobre sua experiência no “Maluco de BR”?

Joel Silva- Eu decidi andar sem dinheiro, sem nada, acampando no meio de fazendas e acabei parando lá no Nordeste. Isso, pra mim, foi um trabalho de terapia. Eu acabei brincando muito com o destino e o acaso, porque não tinha nenhum plano, ao não ser o de sair do Chuí e subir o Brasil. Como eu ia fazer isso? Eu não sabia. E nisso, o destino e o acaso vão brincando e colocando pessoas no seu caminho para te fazer chegar onde você quer. Por causa dessa aventura visitei vários lugares que são surreais aqui no Brasil, maravilhosos, que eu não planejava conhecer.

DONC- É muito diferente cobrir o conflito do Oriente médio em comparação com o brasileiro no Rio de Janeiro?

Joel Silva- São bem diferentes. Quando  você negocia com os rebeldes, eles permitem que você trabalhe com eles cobrindo o conflito. Porém, no Morro do Alemão, o traficante quer mais é te acertar. Eles pensam assim: “Eu vou acertar o jornalista que está do lado do soldado e eu cesso o combate”, isso porque o soldado é obrigado a parar e atender  jornalista. A gente é um alvo muito fácil.

DONC- Como você faz para fazer uma cobertura justa e o mais imparcial possível?

Joel Silva- Uma cobertura equilibrada por exemplo, seria negociar com o traficante, tentar acompanhar o lado deles também, pra ver o que acontece do lado de lá, só que eles não querem. Então acaba aparecendo mais o soldado atirando contra um alvo lá em cima, igual minhas fotos do Morro do Alemão. Também por outro lado, quando fui cobrir o Golpe Militar em Honduras, a gente era cercado por policiais e soldados, porque estávamos mostrando coisas que eles não queriam mostrar.

DONC- Por causa da sensibilidade da situação em que você trabalha, como que você sabe o limite entre tirar foto de algo ou apenas respeitar o momento?

Joel Silva- Eu penso sempre em mim. Mim que eu digo é: Eu gostaria que estivessem fazendo isso comigo? Eu fui cobrir o massacre no Cairo e logo que cheguei o motorista me levou para um velório muçulmano. Quando fiquei de frente para esses caras que estavam vindo com o corpo, eu levantei minha câmera para um dos que estava olhando pra mim, nisso ele abaixou a cabeça, me dando permissão. Depois disso, fiz a mesma coisa com o cara que estava do lado. Eu consegui uma autorização meio que informal deles. Tanto que depois eles me levaram para uma mesquita onde tinham mais de 800 pessoas mortas.

DONC- Houve situações em que você se recusou a tirar uma foto?

Joel Silva- Quando envolvem inocentes eu normalmente não tiro foto. Porque eu, como jornalista, sei o poder de uma imagem, então cabe a mim decidir o que eu faço. Eu tive que brigar uma vez, aqui no Brasil, falar que se eu publicasse a foto daquela pessoa depois o traficante iria atrás dela. Como jornalista, temos esse poder de ajudar e prejudicar.

DONC- Você já está pensando na próxima guerra que quer cobrir ou país que quer ir?

Joel Silva- Eu estou pensando em ir pra Venezuela.  A Venezuela está em um situação tensa atualmente e é aqui na América Latina. Eu sempre me pergunto o porquê de ir para o Oriente Médio. Óbvio que lá tem toda aquela questão humanitária com os deslocados de guerra, mas agora está acontecendo uma guerra no nosso quintal e atinge diretamente a gente, por isso acho que o interesse jornalístico é maior. As pessoas precisam ver o que acontece na Venezuela.  Então, eu já estou planejando uma viagem e caso estoure uma guerra civil, factualmente, eu devo ir pra lá. Aqui no Rio de Janeiro realmente está uma outra situação muito tensa, mas tem as agências para cobrir, então não pensei em fazer nada aqui no Morro do Alemão por enquanto.

DONC- Você pode contar uma história marcante que aconteceu durante alguma de suas coberturas?

Joel Silva- Nossa, é difícil escolher uma história. Acho que a do Felipe me marcou muito. Quando eu fui cobrir a Guerrilha na Colômbia, eu tinha um soldado que foi designado para me acompanhar, esse era o Felipe. Um dia, eu perguntei para ele como ele tinha ido parar na Guerrilha, até porque ele era muito jovem, tinha 16 anos. Nesse momento ele me contou que morava com a família em um sítio e os soldados da FARC passaram e pediram água e um tempo de descanso. Eles ficaram por volta de uma hora lá. Só que os paramilitares descobriram que os guerrilheiros tinham passado por lá e fizeram ele e a mãe dele ficarem ajoelhados em um canto enquanto executavam o pai dele com um tiro na cabeça. Depois disso, o Felipe correu para a mata, porque sabia que ia encontrar a FARC, e a mãe dele para a cidade. Então, ele criou uma motivação para combater os paramilitares.

DONC : E o que aconteceu com ele?

Joel Silva- Bom, no meu último dia lá, eles saíram para fazer alguma operação, como buscar água, alimento, essas coisas. Como eu ia embora, percebi que não tinha nenhuma foto do Felipe. Ele tava de costas para mim, segurando um fuzil, no momento em que ele virou, eu tirei a foto e seguimos nossos caminhos distintos. Ao chegar no Brasil, o Carlos, que é um cara super influente nas FARC, entrou em contato comigo e me mandou no scanner um pedaço do jornal que tinha a notícia de que o exército havia entrado em conflito com a FARC e executado alguns soldados, entre eles o Felipe. Morto com um tiro exatamente na testa, igual ao pai dele. Depois entrei em contato com a mãe dele e encaminhei a foto que tinha tirado do Felipe, aquela acabou sendo a única recordação dele que ela teve. Por isso,  como fotógrafo, senti que fiz meu papel.

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