Thiago Theodoro, o jornalista que pauta o universo feminino

Em entrevista ao DONC, editor da Capricho fala das mudanças de plataformas da marca que aproximaram mais o público

Thiago
Editor da Capricho Thiago Theodoro

A história da revista Capricho vai muito além do que os leitores imaginam. São 60 anos de mudanças para que os leitores se sintam cada vez mais compreendidos. Nos seus primeiros 30 anos, a Capricho foi uma revista de fotonovelas – histórias de amor contadas com fotos, em formato de histórias em quadrinhos. Já em 1982, a revista incluiu serviços focados em moda, beleza e comportamento. Durante a década de 90, ser modelo da Capricho era o sonho de várias meninas.

Com o tempo, os ídolos das leitoras viraram capa e a revista quinzenal. Em 2006, a revista passou por uma mudança gráfica e editorial para ficar mais moderna e atraente. Em 2015, decretou o fim da versão impressa, passou a trazer conteúdos para a internet e aumentou a possibilidade de interação com os leitores, tornando-se mensal.

A Capricho sempre foi uma marca presente e influente em vários aspectos da vida da adolescente brasileira, conforme pesquisas realizadas pela Editora Abril. A revista online busca explicar o mundo de um jeito simples e oferece serviços para as meninas de 13 a 17 anos. Thiago Theodoro, editor da Capricho que trabalha há 8 anos na revista, conta como foi a mudança da marca para a redação e para os leitores.

DONC – Muitas pessoas escolhem o jornalismo por ter uma boa escrita e gostar de ler, além da capacidade de uma boa comunicação. O que fez você escolher e manter a decisão de cursar jornalismo?

Thiago Theodoro – Quando fui estudar jornalismo na Unesp tinha vontade de cobrir política e os fatos que fazem o Brasil mudar. Daí você vai me perguntar o que eu faço trabalhando há dez anos com o público jovem. Acho que é a mesma vontade de acompanhar o mundo em transformação, mas sob outra perspectiva. E uma das melhores visões é a do jovem, que tudo vê primeiro, que não tem medo de sentir, que está a frente do seu tempo por viver esse tempo.

DONC – A revista Capricho tem seus textos voltados para o público jovem feminino que está na fase das dúvidas e autoconhecimento. Como você se sente sendo um homem ajudando meninas a lidar com as dificuldades da adolescência?

Thiago Theodoro – Há muito tempo a Capricho é mais que uma revista. Somos uma marca que escolheu, há 30 anos, falar com a garota brasileira, algo que poucas marcas tiveram a visão e a vontade de fazer. Nunca pensei que o fato de ser homem seria determinante quando escolhi trabalhar numa marca feminina. E acredito que não tenha sido. Me considero um homem melhor por ter passado tantos anos ouvindo, estudando e trabalhando com o ponto de vista feminino. Temos muito o que aprender com elas.

DONC – Cultura, gastronomia, política e esporte. Muitas pessoas durante a carreira, mudam suas direções em relação à profissão. O que fez você seguir o caminho da cultura e do comportamento?

Thiago Theodoro – Há muito tempo meu escopo de trabalho é bem maior do que esse. Na verdade, o jornalista ganhou habilidades, nesses últimos dez anos, tendo como referência que me formei em 2004, que antes não tinha. Veio a internet, vieram os vídeos, as redes sociais se tornaram importantes. É um novo jornalismo! Hoje, a frente de Capricho, edito material impresso, o site, as redes sociais, os vídeos (a linguagem que veio para ficar com o nosso público) e ainda participo do gerenciamento de nossos produtos licenciados. Nunca imaginei que o diploma de jornalismo me proporcionaria isso. É muito rico.

DONC – A crise no jornalismo está atingindo a profissão, fazendo com que as empresas demitam funcionários e mudem suas plataformas e estratégias, buscando resultados positivos. Como a mudança da Capricho, de impresso para virtual, alterou suas funções na redação?

Thiago Theodoro – Como acreditamos na Capricho como marca, não vemos como uma mudança, e sim uma evolução. Sobre a crise da nossa profissão, sendo bastante simplista, acredito que é preciso vê-la de forma positiva: a comunicação, outra vez, passa por uma profunda transformação e eu acredito em nosso poder de reinvenção. Continuaremos produzindo conteúdo, mas de formas bastante diferentes.

DONC- Muitos assuntos deixam os adolescentes em dúvida, para isso as reuniões de pauta são necessárias, ainda mais agora, com novas plataformas disponíveis. Quando a revista impressa existia, a seleção de matérias era feita de uma maneira diferente da que a atual?

Thiago Theodoro – O jovem está sempre em transformação. O tempo todo estamos buscando entender o retrato da nova geração e nos comunicar com ela da melhor maneira possível. Pauta é pauta em qualquer lugar e em qualquer plataforma. Sem uma boa ideia, direcionamento e conhecimento do seu público você não vai a lugar algum. Na revista, no celular, no vídeo, não importa.

DONC- Muitas editorias da Capricho são voltadas a ajudar as leitoras a conhecerem a si mesmas e as opções que podem ter na sua vida. Você considera que o foco da Capricho é auxiliar as jovens a passar por situações socialmente impostas, classificadas como difíceis?

Thiago Theodoro – A imposição social não é uma exclusividade da garota. Vale para todo mundo: a mim, a você, à menina de 13 anos. A Capricho, resumidamente, existe para se comunicar com essa leitora e mostrar para ela que os conflitos dela são importantes, sim, e que ela tem poder de voz. Acreditamos muito nisso.

DONC – Primeiro beijo, virgindade, sexo casual e aborto. A revista Capricho trata de muitos temas considerados tabus para adolescentes. Como vocês selecionam os profissionais para esclarecer as dúvidas dos leitores?

Thiago Theodoro – Na verdade, esses temas são considerados tabus pelos adultos pouco dispostos a conversar com as adolescentes sobre isso. Nós falamos sobre tudo sem medo, com coragem e muita transparência. É assim que se constrói uma marca de sucesso.  E, claro, consultamos profissionais renomados em suas áreas para falar sobre cada assunto (isso continua igual no jornalismo e é isso que vai nos diferenciar dos produtores de conteúdo pouco preparados para discutir quaisquer temas). Ajuda muito se a fonte tem um trabalho com recorte para o público teen.

DONC – Algumas revistas assumem posições políticas, às vezes tradicionais e às vezes mais liberais. Podemos dizer que a Capricho é uma revista que incentiva as adolescentes para se tornarem mulheres independentes ou mais conservadoras?

Thiago Theodoro – A Capricho existe há 63 anos e como marca teen há 30 anos. Nessa longa história, a revista refletiu o momento que a jovem vivia em determinada época. Olhar para o que as marcas femininas faziam nas duas últimas décadas pode parecer antiquado e ainda bem que parece: mostra que a mulher/garota mudou, cresceu, conquistou espaço. E a Capricho participou e participa desse processo dando voz à adolescente que, muitas vezes, encontra um mundo pouco disposto a ouvi-la. É emocionante toda vez que recebo na redação uma garota ou uma mulher – ex–leitora de Capricho – que lembra com carinho de como foi importante ter a gente ao lado dela. É uma sensação de dever cumprido.

Fernanda Giachini e Taísa Luna (3º semestre de Jornalismo)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s