Correspondente internacional no Oriente Médio: entre o sonho e os desafios

Nos últimos anos o Oriente Médio vem atraindo o foco da mídia internacional. Notícias como os conflitos da primavera árabe, guerras civis na Síria, e a presença de grupos terroristas fazem parte desse cenário. O blog De Olho Na Carreira conversou com jornalistas, uma estudante e uma especialista no assunto para entender um pouco mais das dificuldades de ser um correspondente internacional no Oriente Médio.

Cavalcanti mostra detalhes do seu livro Dias de Inferno na Síria Foto: Thiago Montero
Cavalcanti mostra detalhes do seu livro, Dias de Inferno na Síria Foto: Thiago Montero

Klester Cavalcanti, jornalista preso pelo exército Sírio no ano de 2012, conta sobre os conflitos no local. “Quando eu cheguei lá, comecei a ver a guerra na cidade. No carro, parado no trânsito, via tanques de guerra na rua e aviões da força aérea da Síria lançando bombas”, disse.

Relata também sobre os riscos vividos durante sua permanência no país e o medo que sentiu durante os seis dias em que esteve preso na penitenciária de Homs, oeste da Síria. Cavalcanti levou queimaduras de cigarro e teve seu material confiscado pelo exército do país. Mesmo assim, acredita que “a maior dificuldade seria a de se adaptar ao mundo do outro”. Para ele vale a pena arriscar sua própria vida em busca de uma notícia. “Eu acho que o principal do jornalista, e de qualquer profissão, é ter amor pelo que faz” disse.

No entanto, Cavalcanti não se considera correspondente internacional do local. Segundo ele “o correspondente é aquele que vive no lugar, eu fui só visitar”. O jornalista Gabriel Toueg trabalhou como correspondente internacional durante sete anos em Israel. Toueg, que atuou como freelancer no período, comenta sobre as dificuldades desse formato, “A grande dificuldade é não ter um trabalho fixo. Quando eu ia fazer as coberturas, por exemplo, não tinha nem os equipamentos.”. Ressalta, ainda, que em relação aos países árabes, “no geral a maior dificuldade é a de adaptação com um país novo, uma língua nova.”.

Segundo a professora doutora em história árabe da USP, Arlene Clemesha, é importante conhecer todo o histórico da civilização árabe para se situar na região. Além disso, o local exige do jornalista uma determinação maior para enfrentar as diversidades religiosas e a presença de grupos radicais como o Talibã e a Al-Qaeda. Clemesha destaca também a necessidade do estudo da língua árabe e do conhecimento da história do povo local como essenciais para o sucesso no contato com os diferentes povos de cada região.

Arlene Clemesha durante entrevista no prédio de letras da Universidade de São Paulo. Foto: Thiago Montero
Arlene Clemesha durante entrevista no prédio de letras da Universidade de São Paulo. Foto: Thiago Montero

Ambos alertam que para as mulheres a atuação pode ser mais complicada. Cavalcanti acredita que a figura feminina ainda é discriminada nesses países.  Clemesha explica que existe a busca de papel social dessas mulheres, a questão é que é uma luta recente. Por isso, a mulher que deseja trabalhar na região deve estar ciente de todo o preconceito que pode ser sofrido.

Toueg completa “Eu gosto de lembrar de um caso tristemente famoso de uma jornalista recente que estava cobrindo a primavera árabe no Cairo que foi afastada e estuprada por várias pessoas em uma praça. Ser mulher em uma região não só de conflito, mas especialmente onde há o machismo e que é patriarcal é complicado.”

Seguir a carreira de correspondente internacional no Oriente Médio é mais complicado para os jovens, segundo Toueg. Para ele é mais fácil para quem já tem um nome no mercado ou um veículo por trás. Entretanto, isso não impede que os novos jornalistas tenham vontade de atuar nestes países.

Marina Ayub, aluna do terceiro semestre de Jornalismo da faculdade ESPM-SP, conta que seu interesse vem desde que é pequena, devido à origem libanesa de sua família. A jovem disse que esse interesse cresceu com o passar do tempo, e decidiu aprender um pouco mais da cultura e da geopolítica local.

Conheça um pouco mais sobre os entrevistados:

Klester Cavalcanti foi correspondente da revista Veja na Amazônia e atuou em alguns dos maiores veículos de comunicação do país como Estadão, Isto É e Vip.  É autor de três livros vencedores do Prêmio Jabuti de Literatura. Seu último livro, Dias de Inferno na Síria, traz todos os detalhes de momentos como o que policiais do exército queimaram seu rosto com cigarro, durante sua trajetória no país.

Arlene Clemesha é professora de historia árabe na USP. Tem mestrado em história judaica e doutorado em história árabe. É autora de diversos artigos sobre o assunto.

Gabriel Toueg morou de 2004 a 2011 em Israel, onde fez a cobertura das guerras de Gaza e do Líbano para a mídia brasileira e internacional. Quando voltou, trabalhou como editor de Internacional do site do Estadão e,  atualmente, atua como freelancer e editor de Mundo do Metro Jornal. Em seu blog, o jornalista dá dicas para quem tem o sonho de ser correspondente internacional e quem quer trabalhar como jornalista em Israel.

Laura Stabile (1º semestre de Jornalismo)

Marina Cassiolato (1º semestre de Jornalismo)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s