“A indignação te move a não se conformar com situações do dia a dia”

em

Núbia Anjos (2° semestre)

Flávio Ferreira é repórter investigativo do jornal da Folha de S. Paulo desde 2008. Especializado no tema da Justiça, participou da cobertura de grandes casos de corrupção, como a Operação Lava Jato e o Mensalão. Já foi ganhador dos mais importantes prêmios nacionais e internacionais de jornalismo, como o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo de Investigação do Instituto de Prensa y Sociedad (IPYS) e o Grande Prêmio Folha de Jornalismo de 2016.

Flávio falou com a equipe do DONC sobre jornalismo investigativo, após a sua palestra sobre a união do trabalho de campo com uma boa apuração e as mídias sociais realizada na ESPM.

DONC – O que é mais importante para quem quer ser jornalista investigativo?

Flávio Ferreira – O mais importante é ter uma curiosidade aliada a uma indignação, porque a indignação te move a não se conformar com situações que a gente vê no dia a dia, e a curiosidade te ajuda a usar a indignação para coisas que a gente não vê no dia a dia, mas que precisam ser reveladas, então acho que a gente tem que ter essas duas coisas e um espirito de ir aonde as pessoas, geralmente, não vão.

DONC – Como lidar com os riscos de seguir a área investigativa?

Flávio Ferreira – A nossa profissão é uma profissão de alto risco. né? E não digo de só um risco de ter algum problema, de uma agressão física ou de uma ameaça. É mesmo a questão de um risco de você começar a fazer uma apuração e ela não dar certo, ou algo que não tenha a dimensão que você imaginava e aí você fala: “Puxa, eu perdi tempo nisso, etc.”. Mas é esse risco e tal que às vezes faz a coisa dar certo. Uma coisa importante: mesmo quando uma apuração não dá certo, você adquire um aprendizado sobre aquele assunto e quando você tiver uma nova situação, você vai muito mais rapidamente perceber se aquilo vira ou não. Então uma apuração que não dá certo, com certeza ela vai te ajudar em uma próxima, às vezes o que você vai aprender ali, vai te permitir fazer matérias muito mais importantes do que aquela que você estava fazendo, porque você errou, aprendeu, você já viu os caminhos que a coisa pode dar errado, então é importante saber que você está sujeito a esses riscos, mas se você aprender com aquelas coisas que acontecem para você como bagagem jornalística e no futuro, pode ser valioso.

DONC – Você acha que a área investigativa é almejada, hoje, pelos futuros jornalistas?

Flávio Ferreira – Olha, eu acho que uma parte ainda sim, porque a gente tem uma associação de jornalistas investigativos que continua bem viva e tem outra coisa também, a gente fala jornalismo investigativo, mas todo jornalismo na verdade é investigativo no sentido de que você tem algo a revelar de interesse público e tal. E em algum momento, mesmo quem não pense em seguir essa área, ele vai fazer uma matéria que tem. Eu acho que é importante ir pra campo, ir pra rua, ir pra cidade conversar com as pessoas, porque as pessoas vão te contar histórias, você vai ver situações ali que são injustas e aí você vai poder fazer uma matéria investigativa no sentido de você já estar conhecendo aquela realidade e você pode fazer uma matéria bacana. Eu acho que a maioria dos jornalistas quando tiver isso na mão não vai deixar passar. Quem faz jornalismo já tem esse espírito.  

DONC – Qual foi o maior aprendizado que você teve na cobertura da operação lava jato e na operação mensalão?

Flávio Ferreira – A lava jato foi interessante porque eu trabalhei tanto na parte da cobertura da operação em si, como depois da vaza jato, que foi a revelação dos áudios, das mensagens entre o então juiz Moro e os procuradores. Eu acho que o maior aprendizado desse caso foi a necessidade de a imprensa ter uma agenda que seja da busca da verdade e não de cobrir um dos lados da história. Felizmente, lá na Folha, a gente sempre teve uma cobertura muito crítica e a própria vaza jato mostrou que a Folha não era um jornal que era mais utilizado pelos procuradores ou que fosse mais amigo dos investigadores. A gente sempre procurou um equilíbrio. Então uma coisa que sempre foi muito “matelada” no jornal é que a gente sempre tinha que fazer as nossas próprias apurações, a gente não tem que só ficar reproduzindo o que a polícia, procuradoria ou os advogados dizem, a gente tem que buscar, independentemente desses setores, porque no fim cada um deles tem sua própria agenda. Nós, da impressa, não temos que ter uma agenda, nós temos que buscar os fatos que permitam ao nosso público fazer suas próprias interpretações e tomar suas decisões.

DONC – Na sua opinião, é importante que as mídias retomem os casos da lava jato nesse ano de eleições? Isso seria uma forma de conscientização para a população?

Flávio Ferreira – Eu acho que muitas das decisões judiciais que anularam algumas coisas da lava jato, realmente muitas provas foram trazidas à tona, então eu vejo muita gente dizendo que a lava jato acabou. Não, ela trouxe muitos fatos que têm que continuar sendo vistos e tem que continuar sendo analisados, até de uma maneira mais independente pela imprensa. Não se pode passar uma borracha em tudo o que aconteceu, porque muita coisa ali ficou fartamente comprovada. Você pode dizer: “ah, mas tem as delações” – tudo bem, mas muitos delatores trouxeram provas, então tudo isso não pode ser esquecido também. A gente teve a lava jato que mostrou condutas que são inadequadas na relação entre juiz e procuradores, você tem que fazer uma critica desse tipo de situação, mas isso não invalida toda uma parte de obtenção de provas que foi feita, de indícios que vieram à tona, que você não pode simplesmente passar uma borracha. Então a imprensa tem que sim analisar isso e agora com cuidado redobrado, porque ficou mostrado pela vaza jato que houve contaminação em muitas situações, mas não pode jogar tudo o que aconteceu debaixo do tapete, de jeito nenhum.

DONC – O que você diria para os futuros jornalistas?

Flávio Ferreira – Eu diria que a gente tem dificuldades na carreira, no mercado de trabalho, mas a gente tem possibilidades, hoje, incríveis de fazer o nosso trabalho. Por exemplo, a ideia da palestra que eu dei de unir apurações na internet e de campo. A gente tem ferramentas fantásticas na internet hoje, o próprio contato com as fontes. Tudo isso agiliza o trabalho, torna o trabalho rico, então a gente pode aproveitar da tecnologia. O que eu tenho a dizer é: vamos aproveitar tudo isso que está à nossa disposição pra fazer um trabalho empolgante, que tenha um valor pra sociedade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s