“A gente precisa de jornalistas que reflitam”

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Helena Fortunato, 1º semestre de Jornalismo, Tassio Leal, 2º semestre de Jornalismo / Imagem: Divulgação

Ricardo Fotios, gerente-geral de conteúdo do portal UOL e professor de jornalismo da ESPM/SP, concedeu entrevista ao Blog De Olho na Carreira (DONC). Autor do livro ‘’Reportagem Orientada Pelo Clique: o critério de audiência na notícia on-line’’ (Editora Appris), o jornalista falou sobre o tema de seu livro, carreira e cenário jornalístico atual. Confira:

DONC: Por que escolheu o Jornalismo?

Fotios: Tinha muita afinidade com leitura e consumia muita informação nos jornais durante a adolescência (isso no final da década de 1980). O contexto político era muito ativo, a juventude lutava contra a ditadura, o que fortaleceu a “lógica” de busca pela informação.

DONC: Como foi o início de carreira?

Fotios: Comecei minha jornada de trabalho em rádio. Passei pela 97 FM, 89 FM e Rádio Cidade. O primeiro jornal foi o Diário do Grande ABC, como repórter de Cidades. Permaneci lá por cerca de dois anos. Cobria enchentes, crimes, assassinatos. É um tipo de cobertura jornalística interessante. Depois fui para a Editora Abril, seguido da Folha de S. Paulo e, em 1996, iniciei minha carreira no UOL – onde já orbitei por vários cargos e permaneço até hoje como gestor. Ou seja, tive origem no jornal impresso e fui me readaptando.

DONC: Quando surgiu a oportunidade de seguir carreira acadêmica?

Fotios: Em 2004, eu trabalhava como editor de homepage do UOL, quando recebi uma proposta de cobrir um evento em Barcelona por cinco meses: o Fórum Mundial da Cultura. Lá me desliguei da empresa e passei a fazer freelas. Era um ambiente repleto de teóricos e professores, os quais tive que estudar muito para entrevistar e, assim, começou a despertar interesse por novas vertentes da profissão. Estava fazendo 10 anos de tempo ativo da internet, era algo novo e muito mais cheio de dúvidas do que certezas. Era um tempo propício para reflexão. Ao retornar ao Brasil, resolvi voltar a estudar, pois minha formação inicial não era em Jornalismo e sim em Letras. Voltei da Europa impactado com a lógica de algumas informações que não eram tão estimuladas no Brasil ainda, como o jornalismo online. Consolidar-se no curso com essas ideias, estando mais velho e em contato com outros professores, me influenciaram em começar a lecionar.

DONC: Você não se dedica inteiramente à docência, você também está no mercado. Como é a sua rotina?

Fotios: São duas coisas muito distintas, porém prioritárias da mesma forma. O fato de eu estar no mercado possibilita que eu traga para vocês, aqui na ESPM, discussões e reflexões em linha com o que a gente discute no dia-a-dia da redação. Por outro lado, no mercado eu levo discussões que estão em linha com a academia. Os dois lados se beneficiam. Eu não vejo uma ruptura, as duas coisas se complementam. No Brasil isso ainda é complicado. Um dos meus desejos é derrubar esse muro. O background cultural e de conhecimento é muito maior, causando mais reflexões e menos automação. O jornalismo atual não é de juntar letrinhas. Isto as máquinas fazem. A gente precisa de jornalistas que reflitam. Sem background, você trabalha na logística de indústria e automação. Nós não somos robôs, temos outras competências que precisam ser ativadas e academia e mercado juntos ativam.

DONC: O que o mercado busca hoje?

Fotios: Hoje nós não temos um mercado, temos muitos. Essa ficção de que só existe um nos atrapalha um pouco. Estamos numa fase de transição de mídias industriais para as digitais/contemporâneas/tecnológicas. Nessa transição, há veículos que preenchem várias demandas: o tradicional e inteiramente impresso ou TV aberta; o intermediário – não está totalmente inserido no online, na comunicação em rede; e o que está na outra ponta, e já nasceu ou migrou inteiramente para o online. Há mercados diferentes para cada um desses níveis. A minha visão de mercado é mais inovadora. Eu entendo que profissionais novos do jornalismo precisam dominar inteiramente a língua, em todos os seus formatos –escrita, leitura, falada… isso é commodity. A partir daí, uma competência que eu acho importante é ter uma noção básica de codificação e programação, que consiga entender o que é um ambiente sistêmico, onde está inserida essa comunicação. Entender como funciona esse sistema de comunicação nos dias de hoje, desde a apuração, passando pela produção e, sobretudo, na distribuição que é algo que o jornalista tradicional não se preocupava. Se o meu conteúdo é excelente, mas não chega ao meu público consumidor, ele é perdido. Entender de distribuição é entender de modelo sistêmico e de distribuição via algoritmos.

DONC: O que te levou a abordar a temática da “Reportagem Orientada pelo Clique” na sua dissertação de mestrado?

Fotios: Tive aula com um professor da ECA, em 2015, que abordava bastante de neurociência, inteligência artificial e a forma como a sociedade iria lidar com essa nova realidade. Dentre essas provocações, ficou em aberto a possibilidade de estudar essas vertentes ligadas ao mercado atual, e não o futuro, que era o foco do professor em questão. Três pontos me motivaram a aprofundar essa temática: o primeiro, uma vontade pessoal vinculada ao trabalho no UOL, em que eu precisava reestabelecer o conteúdo do portal BOL, voltado para um público-alvo que não o acessava. A gente tinha pouquíssimas ferramentas, uma delas era o clique, vendo onde as pessoas clicavam mais e, por lógica, mais se interessavam. Esse não era um processo sistematizado e eu senti a vontade de sistematizá-lo. Tinha interesse por entender a relação entre produção de conteúdo com o clique do usuário. Outro motivador, mais acadêmico, foi notar que os critérios noticiosos utilizados eram antigos e propor algo mais ousado: ter o clique como um dos critérios utilizados. Além de confrontar o embate entre clique e a qualidade de jornalismo presente na utilidade contemporânea.

DONC: Como você analisa o contexto político atual em que temos governantes em cargos-chefe que desmoralizam/descredibilizam o profissional de jornalismo?

Fotios: O bom jornalismo sempre foi inimigo do poder, isso não é novidade. O jornalismo é uma ciência. Possui forma objetiva de ser feita, sendo muito menos subjetiva do que muitos pensam ser. Assim, uma ciência que escuta todos os lados, os apura e os descreve com precisão, pode muitas vezes indagar o que incomoda, encostar na ferida. Por outro lado, a digitalização dos meios de comunicação auxiliou o menor confronto desses governantes com a imprensa. O uso do Twitter, por exemplo, dá um “chega pra lá” no diálogo de coletivas de imprensa. Saímos de uma relação de perguntas/respostas, para um discurso absoluto. Apenas um lado fala sem contestação.

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