Profissionais de comunicação compartilham opiniões sobre liberdade de expressão e censura

Edson Capoano, na Agência de Jornalismo da ESPM-SP e Marco Sabino, na sede da Globo em São Paulo Foto: Bia Francischinelli
Edson Capoano, na Agência de Jornalismo da ESPM-SP e Marco Sabino, na sede da Globo em São Paulo Foto: Bia Francischinelli

O De Olho na Carreira, quis entender um pouco mais sobre o papel do jornalista na manutenção da liberdade de expressão atualmente. Na última semana, dois profissionais da comunicação contaram um pouco mais sobre suas opiniões e vivências a respeito desse tema.

Conversamos na Agência de Jornalismo da ESPM-SP com professor Edson Capoano que é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade de São Paulo, professor da ESPM-SP e editor do Portal do Jornalismo. Fomos também à Globo, conversar com Marco Sabino, que é gerente de Relações com o Mercado Publicitário, doutor em Ciência pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, pesquisador da Universidade de Columbia para o Projeto Global Freedom of Expression e também tem experiência na área de Ética, com destaque para a liberdade de expressão.

Professor Capoano afirma que a liberdade de expressão em si é garantida pela constituição. No Brasil a UNESCO e o Centro de Informação das Nações Unidas têm desenvolvido uma série de atividades junto ao Governo e aos profissionais para garantir um ambiente seguro e livre às atividades de imprensa.

Quando se fala a respeito da liberdade do jornalista e/ou profissionais da comunicação, Capoano conta que a maior premissa do jornalista é contar a verdade. Para o professor, quando se divulgam informações que sempre devem ser livres e públicas, não cabe a absolutamente ninguém decidir se é de acesso público ou não.

Além disso, a credibilidade de um jornalista e de um meio de comunicação, é um dos fatores decisivos para o consumo do conteúdo. Se o profissional omite certa informação, a própria comunidade julga e perde a confiança. ‘’Omitir informações não é crime, mas pode-se perder espaço dentro do jornalismo. Se você é jornalista e tem uma informação que é importante à justiça e a sonega, ai você pode ser processado como cúmplice”, ressalta.

Capoano também comenta que hoje em dia, graças a criação de canais de comunicação e veículos mais alternativos, muitas pessoas podem expressar sua opinião nas plataformas públicas como jornais, telejornais e rádios. Assim, diversas opiniões são compartilhadas, constituindo a opinião pública, com essa versatilidade a voz do jornalista acaba não sendo a única.

Num bate papo com Marco Sabino, dentro do café da Globo, ele contou em algumas horas um pouco de sua vasta experiência com liberdade de expressão. Confira na íntegra essa conversa:

(DONC) Como o jornalista, sendo um ator fundamental para a sociedade, garante o direito da liberdade de expressão?

(Sabino) Quanto mais o jornalismo se desenvolve, mais ideias circulam na sociedade e maior será a liberdade de expressão. O discurso protegido é aquele discurso que contribui de alguma maneira para formação de uma consciência social ou de uma consciência racional por parte da sociedade como um todo e da parte das pessoas individualmente consideradas. Nesse sentido então, o profissional de jornalismo é fundamental garantir a liberdade de expressão. 

 

(DONC) No Código de Ética do Jornalista, consta que a obstrução direta ou indireta da informação é um delito contra a sociedade. Como lidar então, diante de algum suborno ou manipulação?

(Sabino) Existe um princípio que é muito caro aos meios de comunicação, principalmente onde eu trabalho, que é o princípio da separação Igreja-Estado. O jornalismo e a área de negócios de um veículo são como Igreja-Estado. Estado não interfere na Igreja, e vice-versa, porque o jornalismo precisa inspirar confiança. As pessoas precisam beber da fonte do jornalismo que ela tem confiança, fidedigna, e a internet é um problema, porque todo mundo publica tudo, e você não sabe quem está com a razão, ou quem investigou a notícia. Hoje em dia você pega uma informação, e vai conferir onde? Nos veículos que são creditados. Porque as pessoas não tem essa estrutura de investigação que o jornalismo dá, mas o fato é, o veículo tem que ser imparcial pra inspirar confiança. Ora, se eu tiver uma linha editorial, que privilegie o meu patrocinador, isso é uma forma de me matar, um tiro no pé, uma estratégia errada, porque ninguém mais confiará no meu veículo, eu vou perder minha imparcialidade. Vocês sabem o que é perder imparcialidade para um jornalista? É a morte. Em relação ao suborno, é óbvio que existem homens e homens, e é evidente que por mais inocente que seja, independente do poder de mercado, o jornalista também é humano, assim como um médico, ele tem suas primeiras impressões, pré julgamentos, e é tão difícil você se destituir de tudo que pensava priori, onde a linha de raciocínio que você tinha com frieza, mas é normal acontecer isso, agora não é certo você ser pautado a não dizer, isso não pode acontecer, caso contrário o veículo vai deixar de existir a médio longo prazo. 

 Confira a continuação no áudio:

 

(DONC) Recentemente um empresário no Rio de janeiro, tentou retirar por pressão judicial da mídia uma reportagem a seu respeito na Veja. O ministro do STF analisou e cancelou o caso. É necessário que os jornalistas sempre lutem contra qualquer barreira na liberdade de expressão. Nos dias de hoje, como não se deixar silenciar?

(Sabino) Hoje o que está se configurando é um fenômeno muito interessante, que é o direito de um sujeito que pode pedir a retirada de algum resultado de busca do buscador, que ele não goste, ou entre em sua privacidade, que é como surgiu caso da corte europeia de direitos humanos, mas o perigo é que a humanidade lutou a vida toda por lembrar das coisas, a humanidade lutou pela memória, e agora a gente está falando de esquecimento. Tem dois casos que serão julgados, do programa ‘’Linha direta’’ da Globo, um relacionado a morte de ‘’Aída Curi’’ e outro relacionado a ‘’Chacina de Candelária’’, que estão no STF, e os dois com decisões ligadas a família de ambas, que querem proibir a exibição de matérias sobre os casos, e queriam indenização, que elas conseguiram por enquanto. Mas o que está em jogo ai é a liberdade de expressão do veículo de noticiar fatos que verdadeiramente ocorreram contra a memória daquelas pessoas, que dada a repercussão do fato, elas já esqueceram, mas que vem alguém aqui agitar e agitar, mas não há uma resposta pronta para isso. É verdade que é cada vez mais difícil lidar com a tolerância das pessoas, e esse tipo de intolerância acaba causando uma autocensura, que é melhor não acreditar no que eu digo, mesmo eu querendo falar, porque isso me dará ‘’dor de cabeça’’. Portanto você tem que deixar as pessoas falarem, ainda que sejam diferentes de você, portanto, o jornalismo está cada vez mais delicado nesse mundo polarizado e intercomunicativo.

 

(DONC) E como têm sido seu aprofundamento sobre a liberdade de expressão? Você está fazendo alguma pesquisa sobre isso?

(Sabino) Bom, eu na verdade, pesquiso sobre liberdade de expressão o tempo todo. Eu conclui meu pós doutoramento, e estudei liberdade de expressão comercial, que é liberdade de expressão publicitária, um setor muito negligenciado, e muito vilinpediado, quer dizer, existe uma ideologia muito severa sobre o assunto, porque existe um argumento muito sedutor no sentido de que , porque o discurso comercial é um discurso persuasivo e ele não gosta da mesma proteção de discursos da base das ideais. Quer dizer, ele quer vender, quer ter lucro, então não seria tão nobre quanto o discurso de um político, e eu demonstrei com minhas pesquisas que isso não tem nenhuma razão de ser, acho que a decência da coisa não tem nenhuma diferenciação entre uma coisa e outra, liberdade de expressão é qualquer expressão. E a gente não pode ser tolido na liberdade de expressão, não interessa que forma seja essa.

(DONC) No ano passado, a sede do jornal ‘’Charlie Hebdo’’ sofreu um atentado devido a charges e imagens provocantes a religiões muçulmanas. Você acredita que eles fizeram certo em publicar aquilo, ou poderia ter sido algo mais ‘’contido’’ por ética religiosa?

(Sabino) Trabalhei nesta semana com meus alunos de pós graduação sobre esse caso, e disse a eles sobre direito constitucional, e nele você tem direitos humanos, que são direitos fundamentais, dentre os quais tem um muito importante que é o direito a liberdade de religião, crença e credo, e inclusive a de não acreditar em nada, como a do ateu. Existe um conflito entre liberdade de expressão assim como também a de religião, e há inúmeros casos de liberdade de expressão e invasão de privacidade. No caso do Charlie Hebdo, o jornal que é absolutamente provocativo, todos sabem que é. Ele não só provocava o islamismo, mas provocava tudo inclusive religião e gênero. Eles dão motivo, pois qualquer fundamentalismo é prato cheio para o satírico, gênero que o jornal propôs a discutir, que as pessoas sabem que é, e compram, em uma tiragem pequeniníssima, e na minha opinião nada justifica o que aconteceu ali. Eu entendo que eles (jornalistas) não erraram, eles estavam usando um gênero muito famoso, a sátira e ironia, que muitos escritores que conhecidos usam. Imagina só, se eu entendo que: ‘’Ah não, isso não pode ser retratado porque envolve religião’’. Isso acabaria com o gênero literário. No meu sentir, a sociedade retrocedeu, porque aquele discurso era de comédia, bem humorado, e se tiver caráter satírico, ele é crítico. A liberdade de expressão é uma luta diária desde a hora que a gente acorda até a que dorme. 

Marco Sabino, comentou um pouco mais a respeito da liberdade de expressão no caso dos atentados em Paris. Confira nesse áudio:

Beatriz Francischinelli (1º semestre de Jornalismo)

Colaboração: Thais Gazarra (1º semestre de Jornalismo)

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