“Não sangre em aquário de tubarões”: a trajetória de Letícia Beppler no meio esportivo

Luna Lima e Maria Gayoso (2° semestre)

O jornalismo esportivo tem passado por uma grande transformação nos últimos anos: cada vez mais mulheres ocupam espaços de destaque nas transmissões, comentários e bastidores. Nas Olimpíadas de 2024, por exemplo, elas já representaram cerca de 40% das equipes de cobertura, um avanço significativo em relação a edições anteriores. Com novas vozes e perspectivas, as jornalistas esportivas vêm quebrando barreiras e mostrando que o entendimento sobre o jogo vai muito além do gênero.

Entre essas profissionais está Letícia Beppler, comentarista do Estádio 97, na rádio Energia 97. Corintiana, Letícia começou como comentarista no programa Mais Corinthians em 2015 e desde então, constrói uma carreira marcada pela paixão, competência e coragem de ocupar um espaço que, por muito tempo, foi dominado por vozes masculinas.

Hoje, Letícia é reconhecida não só por seu carisma e conhecimento técnico, mas também por representar uma mudança na forma como o público enxerga as mulheres no meio esportivo. Nesta entrevista, a profissional fala sobre o início da sua relação com o futebol, os desafios de ser mulher em um ambiente ainda marcado pelo machismo e o futuro das jornalistas esportivas no Brasil.

Luna Lima: Como começou a sua relação com o esporte?

Letícia Beppler: Desde pequena sempre gostei de futebol. Meu pai, corintiano fanático, fez a família inteira virar corintiana e a gente acompanhava os jogos com ele. Então eu cresci com esse amor. Também joguei futsal, futebol, basquete, sempre fui uma pessoa do meio esportivo. Eu fiz faculdade de educação física e pensava em trabalhar com futebol. Só que aí, na era digital, sempre estive nas redes sociais, dando opinião e o pessoal compartilhando e me seguindo. Quando eu vim para São Paulo, fizeram um convite para eu participar de uma TV em Osasco como convidada para falar sobre o Corinthians. Eu fui, participei, eles gostaram da minha participação e depois me chamaram para comentar de forma fixa lá e assim eu comecei. 

L.L: Como foi a transição de fã de futebol para comentarista profissional?

L.B: Não foi planejado, foi uma coisa que aconteceu naturalmente, mas ao mesmo tempo, quando eu entendi que ia acontecer, eu fui me preparando. Eu comecei a fazer cursos na área que pudessem me trazer um entendimento maior para me sentir preparada para quando outras oportunidades profissionais viessem. 

Eu já tinha o curso de educação física, fiz um curso de apresentadores, fiz Wolf Maia [escola de teatro] também para televisão e depois comecei a fazer cursos voltados para o futebol, especializações, curso de tática, scout [análise de desempenho], de arbitragem e fui me aperfeiçoando. Nós mulheres, num meio que ainda é machista, temos que ser três vezes melhor, porque qualquer erro nosso é “porque é mulher”. Então eu sempre tive esse pensamento de que eu preciso me preparar para não ser vista apenas como a mulher que está ali, apenas como um rostinho bonito. Eu fui de certa forma evoluindo passo a passo e ainda evoluo. E eu acho que é o segredo do sucesso também a gente estar aberto a aprender. Nunca pensar que o que sabemos já é o suficiente. O futebol muda com o tempo. Hoje não é mais o que era nos anos 90, então nós temos que nos atualizar também.

Maria Gayoso: Em que momentos você sentiu que teve que se provar por ser mulher?

L.B: Eu acho que o Estádio 97 em si é um ápice para mim, porque eu fui a primeira mulher no elenco em 20 anos de programa. O programa é caracterizado por ser como uma mesa de bar, aquela conversa entre homens. Apesar de eu ser uma menina que se criou no meio dos meninos e eu ser um pouco mais extrovertida, tem aquela galera que não é acostumada com isso e uns que não aceitam. Você tem que ter jogo de cintura para lidar com tudo isso. Acho que a minha entrada no programa, apesar de trazer muitas coisas boas para minha carreira, foi o maior desafio, principalmente por ser a única mulher e por ter que lidar com isso todos os dias. 

L.L: Você acredita que os ouvintes têm mais resistência em levar os seus comentários a sério da mesma forma que levam os de apresentadores homens?

L.B: Eu acho que hoje não. Com o tempo a gente vai se provando, vai mostrando que pode estar ali. Eu acho que a galera que tem um bom senso sabe diferenciar uma coisa da outra, mas sempre vão existir aqueles que são machistas, que não aceitam. Eles nem esperam você falar e já acham que você está errada. E já vem com o comentário de: “Mulher, não entende de futebol”. 

É a minoria, no meu caso, eu não recebo tantos ataques como infelizmente eu vejo muitas mulheres recebendo, principalmente narradoras. Mas eu acho que esses comentários sempre vão existir. Eu sempre falo sobre esse comentário mesmo, “mulher não entende de futebol”. O futebol não é uma ciência complexa, ele não é uma coisa difícil de se entender, não existe cientificamente nada que faça uma mulher não entender de futebol tanto quanto o homem. Agora, a partir do momento que a mulher gosta, que a mulher está inserida no contexto e que acompanha, ela entende tanto quanto o homem. É simples.

L.L: Como você lida com esses comentários e ataques machistas?

L.B: Cada um leva de um jeito. Eu prefiro ignorar a maioria dos casos, até porque é um preconceito que está na cabeça da pessoa, não sou eu que vou mudar e eu preciso ter essa visão. Muitas vezes a gente quer fazer a pessoa acreditar nas mesmas coisas que nós, mas não é um trabalho nosso, não adianta. Cada um segue o que acha melhor, o que aprendeu, e vai muitas vezes morrer pensando dessa forma. 

Eu acho que o melhor para nossa sanidade mental é ignorar. Nem sempre eu consigo fazer isso, mas se eu pudesse dar um conselho para mulheres que vão estar expostas a esse tipo de coisa é ignorar. Eu acho que ignorando, você tem menos contato, menos sequelas e menos estresse.

L.L: Você acredita que a sua presença e de outras jornalistas femininas no meio esportivo ajuda a atrair mais mulheres para o esporte?

L.B: Com certeza. A gente trabalha a base do espelho, então a partir do momento que você tem mais mulheres alcançando esse espaço, você mostra para outras meninas que elas podem estar ali também.

Na minha época tinham bem menos mulheres inseridas no meio da mídia de futebol e menos mulheres jogando também. E olha como mudou. Então, é perceber que uma está incentivando a outra. Eu acho que na mídia também. Eu me espelhei muito na Soninha, que era uma comentarista da ESPN, que sentava com os caras e debatia com eles de igual para igual. Ela não era só aquela figura da mulher que está ali só para apresentar ou só para mediar um debate entre homens ou só por ser bonita. Ela era aquela mulher que tinha opinião, tinha voz. Então, para mim ela foi uma precursora dessa situação e serviu como um espelho, como eu espero servir de espelho para outras meninas também.

L.L: Que conselho você daria para uma mulher que quer entrar no meio esportivo e quais conselhos você gostaria de ter recebido?

L.B: Tem uma frase que eu gosto muito que é “não sangre em aquário de tubarões”. Nós mulheres sempre vamos ser vistas como sexo frágil, mesmo que a gente saiba que de frágil não tem nada. A gente tem que ser três vezes melhor para ser validada. Então, meu conselho é força. Você não pode se mostrar frágil em nenhum momento, não pode demonstrar. Muitas vezes a gente vai sentir algumas coisas, mas o momento de assimilar tudo é no seu espaço ou com a sua família e não dando munição para os outros. Então, em primeiro lugar, é a força da mulher que vai fazer toda a diferença.

E não desistir. Tudo na vida é resiliência, principalmente para nós mulheres, porque vão chegar as provações e os comentários de que você está ruim, que não é coisa de mulher e você vai ter que ser resiliente,vai ter que saber ignorar ou bater de frente, mas nunca desistir. Se você quer isso, se é por isso que você vai lutar, vai. Não tem outro caminho, não pense em outra possibilidade. Tenha só isso na sua cabeça e se você se esforçar, tenho certeza que vai dar certo.

L.L: Você tem algum sonho para a sua carreira que ainda gostaria de realizar?

L.B: Eu tenho, mas acho que eu vou pouco a pouco. Eu vou fazendo meu trabalho, dia após dia, aproveitando as oportunidades quando elas surgem. Eu acho que eu já realizei um sonho. Essa parte de estar num programa esportivo que tem essa pegada de humor, de levar a rivalidade de uma forma saudável, isso é algo que eu sempre quis, porque é a maneira que eu enxergo o futebol. Eu acho que o futebol tem que ser assim, é inclusão, é um momento de entretenimento com os amigos. Eu sempre gostei disso, então eu não me imagino sendo de um programa completamente sério, onde você tem que levar tudo ao pé da letra. Só de poder viver o que eu acredito, já é a realização de um sonho. Mas o que for vindo pela frente, a gente vai trabalhando, evoluindo e também muitas vezes mudando os sonhos, criando novos. Por que não? A vida é isso, é cíclica. 

L.L: Se você pudesse entrevistar uma atleta, qual você escolheria?

L.B: Marta em primeiro lugar, com menção honrosa à Formiga também porque ela merece. São duas jogadoras da seleção brasileira que são essas mulheres fortes e que em um tempo em que o futebol feminino não tinha tanto espaço no Brasil, elas estavam lá lutando e abrindo portas para outras. Tudo o que elas fizeram no passado está rendendo frutos agora. Acho que o futebol feminino está cada vez mais forte. Hoje está levando público para o estádio, o que não acontecia na época delas.

A Marta e a Formiga são ícones do futebol feminino no Brasil, que tem que ser sempre lembradas, eternizadas na história, porque elas abriram as portas. Vai ter muita gente vindo ainda, eu acho que vai ter muita mulher fazendo sucesso, talvez até ultrapassando a Marta em questão de Bola de Ouro. Pode ser que no futuro venha mudar, que alguma outra menina ultrapasse ela em números. Só que o fato dela ter aberto as portas para outras, dela ter sido essa mulher que puxou a fila, isso nunca vai mudar. 

L.L: O que você espera para o futuro das jornalistas e comentaristas esportivas?

L.B: Eu espero que a gente consiga mais espaço, não só no futebol, mas em todos os meios onde a gente possa ter voz e ser levada a sério. Eu acho que ainda existe muito preconceito e muitos conceitos errados em torno da mulher. Nós somos vistas como as cuidadoras, quem cuida do parente doente, dos filhos é sempre a mulher. Isso às vezes nos afasta de outros afazeres, nos tira espaços. A gente está longe de quebrar todos os preconceitos que existem, todos os males que ele deixa na sociedade e que sobrecarregam a mulher. Mas aos poucos eu acho que a gente está caminhando para um futuro melhor e eu acho que é muito por responsabilidade dessa nova geração de meninas como vocês que estão atrás disso, que estão buscando respostas, que estão aqui para entrevistar, para saber mais e, claro, para buscar o espaço de vocês. É uma construção diária e é uma herança que a gente vai deixar para as próximas gerações também.

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